Autor: Arquiteta e urbanista Livia Amasis Costa Assis
Orientadora: Profa. Drª Ana Maria de Souza Martins Farias
RESUMO
Construir espaços democráticos para a população perpassa a necessidade que os mesmos sejam pensados coletivamente, de forma igualitária e sobretudo, respeitosa. A importância de evidenciar e estimular a participação de pessoas pretas nesse processo demonstra uma tentativa de reparação histórica sobre as mazelas deixadas pela diáspora africana, tanto no Brasil como no Mundo. O presente trabalho “Profissionais invisíveis: Arquitetas e Urbanistas pretas no mercado de trabalho nordestino” tem por objetivo geral analisar o ingresso e atuação de arquitetas e urbanistas pretas no mercado de trabalho da região Nordeste do início do século XX até os dias atuais, e, como objetivos específicos, investigar em quais campos trabalham, quais oportunidades estão disponíveis para as mesmas em comparação com demais gêneros e raças, as dificuldades enfrentadas no coletivo e as mudanças sociais observadas nos últimos anos. A metodologia adotada é quali-quantitativa, com revisão bibliográfica e levantamentos de dados secundários, bem como aplicação de questionários e entrevistas com base no método Delphis. Sob esta ótica, o estudo revela que as questões de gênero e cor no país se traduzem de forma incisiva e cruel no dia a dia social e laboral destas profissionais, porém, assim como suas ancestrais, as mesmas seguem se organizando coletivamente em busca de um futuro melhor para si e as próximas gerações.
Palavras-chave: Arquitetas e urbanistas; mulher preta; mercado de trabalho; racismo estrutural; Nordeste.
Historicamente as mulheres são submetidas a uma sociedade patriarcal, e no Brasil essa situação não é diferente. A trajetória da mulher preta e nordestina é marcada por desafios referentes à raça, gênero e região: as mesmas observam maiores dificuldades no acesso educacional e profissional, diferenças salariais em cargos semelhantes e menor alcance às oportunidades disponíveis às mulheres e homens brancos das demais regiões. Esta problemática é percebida também na prática arquitetônica e urbanística brasileira: pouco se estuda sobre as contribuições destas profissionais no ensino e mercado de trabalho de Arquitetura, onde as maiores referências são eurocêntricas e/ou embranquecidas.
Na busca por respostas claras sobre a problemática e observando a história do Brasil, entende-se que a maior herança social deixada pelos 400 anos de escravidão no país foi um abismo de desigualdades e discriminação, pois, mesmo após a abolição da escravatura, há um enorme preconceito e falta de oportunidades igualitárias para homens e mulheres pretos, e para mulheres pretas essas chances praticamente não existem. Desta forma, se justifica a relevância social da realização de um estudo que contribua na descontrução do processo de discriminação de diversas ordens e contra o racismo estrutural.
As arquitetas e urbanistas pretas e nordestinas muitas vezes têm seus saberes e experiências invisibilizados e menosprezados, resultado de anos sob uma construção nacional reconhecidamente racista, misógina e xenofóbica. Neste contexto, o objetivo geral deste trabalho busca analisar o ingresso e atuação de arquitetas e urbanistas pretas no mercado de trabalho da região Nordeste do início do século XX até os dias atuais.
Com base na elaboração e estruturação dos objetivos específicos, busca-se estudar os diversos campos profissionais nos quais as arquitetas e urbanistas do grupo em questão atuam, estudar as mudanças sociais decorrentes do ingresso de mulheres pretas nas universidades públicas e particulares com a implantação do sistema de cotas no Brasil e relatar as dificuldades enfrentadas por esse grupo populacional e profissional.
Dividido em cinco capítulos, o trabalho inicia com a apresentação do referencial teórico que fundamenta a construção da temática, bem como as especificidades de cada tópico. Com os subtópicos Escravatura, discriminação e a mulher escravizada, Os efeitos da escravidão no Nordeste, As mulheres pretas e o acesso ao ensino formal, Mulheres pretas no mercado de trabalho e o racismo estrutural e A reparação (um dia haverá?), é apresentado o contexto histórico do desenvolvimento da sociedade brasileira, desde o Brasil Colônia a contemporaneidade.
No terceiro capítulo, é abordado o ensino de Arquitetura e Urbanismo para mulheres, desde o contexto geral e mundial feminino, passando para o enfoque brasileiro até as discrepâncias das oportunidades existentes para mulheres pretas e brancas discentes. Com o subtópico Mulheres pretas nordestinas e a implantação do sistema de cotas são apresentadas as mudanças e entraves sociais com a implementação em 2012 da Lei nº 12.711, que garante a reserva de 50% das vagas nas universidades e instituições federais de ensino técnico de nível médio para pretos, pardos, indígenas, pessoas com deficiência e estudantes de escola pública, e demais políticas públicas reparativas criadas.
No quarto capítulo, será apresentado um panorama da profissão do ponto de vista das arquitetas e urbanistas. Utilizando uma metodologia quali-quantitativa, junto aos levantamentos bibliográficos e documentais sobre a temática foram aplicados questionários e entrevistas, as últimas baseadas no método Delphis, para mapeamento das profissionais pela região, visando entender seus setores de atuação, sentimento de pertencimento, questões sobre posições de chefia e liderança, atos de discriminação e táticas de empoderamento no meio, demonstrando a importância da informação e divulgação destes conhecimentos no combate à discriminação racial, sexual e regional.
No último capítulo, Reflexões finais, discorre-se sobre os resultados que foram observados no levantamento de informações e dados, como a temática é tratada no Brasil e o que pode ser mudado para que cada dia mais as arquitetas e urbanistas pretas sejam reconhecidas.
Analisar e combater essa invisibilidade tanto histórica como do panorama atual é abrir portas para uma organização social mais democrática.